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Suicídio - Compreender para Prevenir

Quarta 10/02/2016 - André Amâncio
Suicídio - Compreender para Prevenir
Sicoob Credipatos 1

Esequias Caetano -  Psicólogo: CRP 04/35023
Especialista em Psicologia Clínica – Terapia Analítico Comportamental
Formação em Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Analítico Funcional

O dia oito de fevereiro de 2016 começou de forma trágica em Patos de Minas, Minas Gerais. Os jornais locais traziam a notícia de que mais um jovem, de apenas 22 anos, havia cometido suicídio. Era a sétima morte por autoextermínio em pouco mais de um mês. A segunda em apenas uma semana. Em poucas horas o assunto se tornou tema de debate nas redes sociais. O que pode levar alguém a desistir da própria vida? Como evitar que isso aconteça? Quem são os culpados?

Como Explicar o Suicídio?

É muito difícil chegar a uma resposta satisfatória para qualquer uma destas perguntas, mas é fácil saber de onde partir. As Ciências do Comportamento têm nos dado informações importantes sobre as razões pelas quais as pessoas agem da forma como agem. Atualmente sabemos, por exemplo, que o comportamento humano, seja ele saudável ou não, recebe influência de fatores de ordem genética, pessoal e cultural. E isso vale também para o comportamento suicida, sobre o qual buscarei falar neste texto. Tentarei analisar as principais propostas explicativas apresentadas pela literatura especializada na área, e ao final, deixar dicas sobre como prevenir e lidar com um familiar ou amigo com comportamento suicida. Vamos começar, então, falando dos fatores de ordem genética.

Atualmente não há consenso sobre a existência ou não de um gene específico que predisponha ao suicídio, mas as pesquisas na área têm encontrado fortes evidências de que há associação entre o suicídio e os genes ligados ao comportamento impulsivo e impulsivo-agressivo¹. A hipótese é bastante pertinente, já que o ato suicida frequentemente ocorre como uma resposta impulsiva a uma situação insuportável, e além disso, o comportamento impulsivo é descrito pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como um dos principais fatores de risco para o autoextermínio.  Outros estudos têm encontrado relação positiva entre alterações nos genes ligados à capacidade do cérebro de se regenerar após a experiência de traumas e a ocorrência de comportamentos suicidas², o que também é bastante coerente com a literatura da área – a maioria das pessoas que chegam a se matar passaram ou estão passando por situações extremamente traumáticas, insuportáveis, e apresentam dificuldades para lidar com seus impactos³.

Os fatores de ordem pessoal certamente são os mais investigados e os mais bem descritos na atualidade. Eles correspondem às experiências individuais de cada pessoa que contribuem não apenas para a manifestação ou supressão das propensões genéticas, mas também para o desenvolvimento das atitudes específicas que predispõe ao suicídio. A maioria das campanhas de prevenção foca na promoção de mudanças nestes fatores, já que é mais fácil para familiares, profissionais da saúde e órgãos governamentais influenciá-los. Mas quais são eles? 


Certamente podem variar muito de pessoa para pessoa, mas as pesquisas com pacientes suicidas demonstram que a maioria deles está passando, ou passou em algum momento da vida, por experiências como desemprego, relações familiares ou de amizade muito conflituosas ou pouco calorosas, traumas (abuso sexual ou físico, sequestro, estupro, etc), perdas pessoais (grandes perdas financeiras, perda de entes queridos, rompimento de relacionamentos, etc), dores ou doenças físicas crônicas (câncer, HIV, problemas cardíacos, etc) e exposição a suicídio de outras pessoas (familiares, amigos ou a notícias sobre suicídio)⁴.  A lista ainda pode crescer se pesquisarmos mais, mas o que estas e outras possíveis experiências comuns a pacientes suicidas tem de semelhante é o que as ciências do comportamento tem chamado de “incontrolabilidade”.

O conceito de incontrolabilidade é usado para descrever situações problemáticas em que, por mais que a pessoa tente encontrar saídas, soluções ou alternativas, ela falha, fracassa. Todos nós passamos por momentos de falha ao longo da vida - uma vez ou outra -, mas a pessoa suicida experimenta situações de fracasso de forma repetitiva, intensa e inevitável. Alguns, quando desistem de procurar emprego, conseguem se virar bem com o apoio de familiares, fazendo “bicos” ou se utilizando de outros recursos. Outros simplesmente não tem apoio de familiares ou não tem sucesso nos “bicos”, ou ainda, por razões culturais, acredita que a ajuda de um familiar é um fracasso maior do que estar sem trabalho. Nesse caso, não há para onde correr. A medida que as contas chegam, que os impactos do desemprego vão se acumulando e que nenhuma saída parece possível, a pressão aumenta (muito!) e a vida se vai se tornando insuportável. Como nos diz um importante pesquisador americano, Murray Sidman, ao passar por muitas experiências de insucesso a pessoa passa a considerar a si própria um fracasso, um ser indigno de continuar vivendo. É um processo comportamental inevitável. E com o final trágico.

Podemos analisar inúmeros exemplos de incontrolabilidade aqui. Imagine uma pessoa que, já na infância e adolescência, experimentou relações familiares extremamente desgastantes – pais agressivos, dependentes químicos, pouco afetuosos, muito exigentes, etc.  Por motivos cuja análise foge ao escopo deste texto, essa pessoa se casa com alguém cuja convivência também é bastante difícil. No do dia a dia, todas as suas tentativas de ficar bem são frustradas ou resultam em mais discussões, desprezo ou agressões. Não há saída. As alternativas são sofrer ou sofrer. Como devemos esperar que esta pessoa se sinta consigo mesma? Como devemos esperar que ela pense sobre si? Uma variedade de sentimentos e pensamentos de incapacidade, impotência e desesperança vai se formando.

Naturalmente o efeito de experiências como as descritas acima é cumulativo. Quanto maior I) o tempo de exposição a cada experiência,  II) a quantidade de experiências às quais a exposição ocorre e  III) a intensidade desta exposição, maiores os riscos de suicídio. Não se trata, portanto, de ter problemas, mas de: 1) não ser possível resolvê-los, e 2) estes problemas serem contínuos, cumulativos e intensos. Cada um tem um limite pessoal que varia em função não apenas das variáveis já citadas (genética, tempo, quantidade e intensidade da exposição), mas também da exposição ao que a literatura especializada chama de “fatores de proteção”.

Os fatores de proteção correspondem, basicamente, a experiências que produzem sentimentos de bem estar, pertencimento e segurança, como o apoio incondicional da família, amigos ou de outros relacionamentos, envolvimento em atividades em grupo ou comunitárias, envolvimento com atividades de esporte e lazer, trabalho, boa saúde física ou acesso a recursos de autocuidado. De forma semelhante às experiências que facilitam o desenvolvimento do suicídio, esta lista também não acaba. É possível expandir de forma infinita a quantidade exemplos, dependendo do contexto de vida e das possibilidades de cada um. Em terapia, costumo perguntar a meus clientes o seguinte: o que te faz bem? O que podemos fazer para que você tenha acesso a estas coisas que te fazem bem?

Muitas pessoas dizem se sentir bem quando estão ouvindo música, viajando, pescando ou brincando com animais (aliás, animais de estimação são ótimos!). Outros detestam tudo isso, mas adoram andar pelas ruas olhando vitrines, adoram arrumar o armário ou cozinhar. Mudamuito de pessoa para pessoa. É importante lembrar, no entanto, que há quem não se sinta bem de forma nenhuma e há quem sequer tenha energia para se envolver com alguma atividade que possa proporcionar sentimentos bons.  Isso é comum quando a intensidade, a quantidade ou o tempo de exposição às experiências de incontrolabilidade (como as já descritas) são grandes. Nestes casos, o risco é ainda mais elevado.

Ainda na esfera das fontes de influência de ordem pessoal está o que as ciências comportamentais chamam de “modelagem” do comportamento suicida. A modelagem é um processo através do qual um comportamento simples se modifica, de forma gradativa, até se transformar em um fenômeno complexo – como o autoextermínio. De forma resumida, uma pessoa que desde criança aprende que não deve tolerar a dor, mas sim, evita-la, ou que desistir é o melhor caminho diante de situações difíceis, mais provavelmente cometerá suicídio. Mas a questão é: que experiências favorecem este tipo de aprendizagem? Várias, mas para ilustrar, imagine uma família que, quando a criança ou adolescente desiste de algo, I) faz por aquilo ela, II) demonstra uma quantidade maior de afeto e atenção ou III) oferece algum tipo de benefício ou prêmio de consolação. Com o tempo, a desistência passa a produzir também outros tipos de efeito, como I) alívio de algum sofrimento, II) eliminação ou suspensão de problemas ou III) resolução ou evitação de conflitos. A longo prazo, e sem ter consciência disso, a pessoa acaba aprendendo que desistir é o melhor caminho, e se esta aprendizagem se combina com os outros fatores de ordem genética, pessoal e cultural que favorecem o suicídio, desistir da própria vida se transforma na possibilidade mais provável.

O terceiro tipo de fonte de influência para o comportamento suicida é a cultura. Enquanto algumas práticas culturais o previnem, condenando-o ou valorizando a aceitação das emoções negativas, outras o incentivam deliberadamente ou o favorecem de forma menos direta. A cultura samurai é um exemplo típico de incentivo ao autoextermínio. Para aqueles guerreiros, é preferível tirar a própria vida a submeter-se ao inimigo. Alguns grupos religiosos também incentivam o suicídio, especialmente quando feito em razão de algo que entendem como uma “causa maior” – uma guerra santa, por exemplo. Na maioria dos casos, porém, a influência da cultura é menos óbvia e menos direta do que nas situações citadas. Ela acontece através do impacto das crenças, valores e normas a respeito de comportamentos ou características específicas das pessoas.

Uma cultura que desvaloriza indivíduos desempregados provavelmente induzirá seus membros a ter que tipo de atitude em relação a quem não possui emprego? A respostaé óbvia. Não ter emprego em uma família que acredita que ser desempregado é sinal de incompetência é muito pior que não ter emprego em uma família que acredita que ser desempregado é uma condição passageira, temporária e dependente de fatores externos ao indivíduo (economia, por exemplo). No primeiro caso, críticas, cobranças e juízos de valor são muito mais prováveis que no segundo, que por sua vez, mais provavelmente favorecerá acolhimento, apoio e aceitação.  Ficar depressivo em uma família que acredita que a Depressão é sinal de fraqueza, falta de força de vontade ou de motivação é muito pior que ficar depressivo em uma família que vê a Depressão como um processo psicológico sério, que merece cuidados especiais. De forma semelhante ao exemplo anterior, no primeiro caso as críticas, cobranças e juízos de valor são mais prováveis, enquanto no segundo caso a ajuda, aceitação e cuidado são esperadas.

A cultura exerce influência não apenas sobre a avaliação e atitudes dos outros em relação à pessoa, mas também sobre a avaliação e atitudes que a pessoa tem em relação a si própria. Por exemplo, um homem que cresceu em um contexto que valoriza o patriarcalismo e o responsabiliza por prover o sustento da família, provavelmente sofrerá muito mais com o desemprego do que um homem que cresceu em um contexto que prega a crença de que ele não é o único responsável por garantir recursos financeiros para a família.

Não há como dizer, a princípio, qual dos tipos de fonte de influência é mais relevante que a outra – a genética, a pessoal ou a cultural. Nenhuma delas é mais importante a priori, mas cada uma adquire pesos diferentes para pessoas diferentes, e em muitos casos, uma pode contrabalancear a outra. Por exemplo, uma pessoa exposta às experiências de ordem pessoal que favoreçam o comportamento suicida, mas que aprendeu a acreditar que o suicídio é errado (algumas religiões têm este efeito), pode não se suicidar. Por outro lado, uma pessoa fortemente inserida em uma cultura que incentiva o suicídio, mas que experimentou vivências que desestimulam o autoextermínio – como os fatores de proteção –, também pode não se suicidar. É difícil, portanto, prever ao certo quem vai e quem não vai se matar sem que seja feita uma análise cuidadosa de cada caso, mas conhecer as possíveis causas do suicídio pode ajudar a preveni-lo e a identificar quem está em risco. Ajuda também a não tratar a questão de forma simplista, como, infelizmente, muita gente tem feito.

Sinais de alerta: como identificar quem está em risco de suicídio?

Qualquer pessoa exposta às experiências pessoais ou aos fatores culturais que favorecem o suicídio, conforme discutido anteriormente, está em risco. Existem, no entanto, alguns sinais específicos que indicam que o risco é elevado e sugerem necessidade urgente de cuidados profissionais. São eles

- Já ter tentado suicídio alguma vez;
- Dizer frases de alerta, como: “preferia estar morto”, “eu não aguento mais”, “não suporto mais”, “sou um perdedor (a) e um peso para os outros”, “os outros vão ser mais felizes em mim”, “não vale mais a pena viver”, entre outras do gênero.
- Ser familiar, amigo ou conhecido de alguém que tentou ou que cometeu suicídio;
- Possuir algum problema psiquiátrico, como Depressão, Transtorno de Ansiedade, Esquizofrenia, Transtorno de Humor ou outros;
-  Estar desempregado ou com dificuldades financeiras extremas;
- Ter sofrido perdas recentes;
- Possuir doenças graves;

Como ajudar uma pessoa em risco de suicídio?

O primeiro passo e mais importante é não rejeitar ou invalidar o sofrimento da pessoa. Muitos acreditam que o suicida não avisa ou não dá sinais de que pretende se matar, mas ele dá. Muitos acreditam que a pessoa que se fere a si própria ou ameaça suicídio está apenas chamando a atenção, mas não é. Estes são sinais claríssimos de risco elevado de autoextermínio. É importante, então, ficar atento e respeitar cada uma das evidências de risco. Conhecer as causas do suicídio e os sinais de alerta é essencial. Feito isso, as seguintes estratégias podem ser adotadas⁵:

1. Encontrar um lugar discreto e sigiloso para conversar;
2. Separar um tempo para conversar
3. Ouvir atentamente e com calma (sem dar sinais de pressa ou ansiedade)
4. Entender os sentimentos da pessoa (não julgar ou expressar juízos de valor)
5. Dar mensagens corporais de aceitação e respeito (olhar atento, expressão calma, por mais que isso seja difícil);
6. Mostrar preocupação e cuidado.

O que jamais se deve fazer:

1. Interromper com frequência
2. Ficar chocado ou muito emocionado
3. Dizer que está ocupado ou que continua a conversa depois
4. Fazer o problema parecer trivial
5. Tratar o paciente de maneira que ele se sinta em uma posição de inferioridade
6. Dizer, simplesmente, que tudo vai ficar bem e que não há motivos para se preocupar;
7. Dizer  à pessoa que ela tem uma vida boa e não tem motivos para se sentir daquela forma.
8. Fazer perguntas ou comentários indiscretos ou críticos
9. Emitir julgamentos (certo X errado), tentar doutrinar.


Se você se identificou com algo que leu ou se conhece alguém que se identifica, busque ajuda imediatamente. Entre em contato com Centro de Valorização da Vida através do telefone 141 ou através do site http://www.cvv.org.br/site/index.php, a qualquer hora do dia ou da noite. Esta é uma ONG especializada na ajuda a pessoas em risco de suicídio. O atendimento é gratuito.
Para maiores informações sobre o suicídio, acesse a seção “Blogue”, no site www.ellopsicologia.com.br. Lá você encontrará, entre outras coisas, alguns vídeos e materiais didáticos com informações sobre suicídio e outras dificuldades emocionais.

 

MATERIAL CONSULTADO

¹ . Turecki, G. (1999). O suicídio e sua relação com o comportamento impulsivo-agressivo. Revista Brasileira de Psiquiatria. V. 21, N2. São Paulo.
² . Antunes, M. P. (2010). Genética do Suicídio: Investigação de SNPs em genes das neurotrofinas e mecanismos de transdução de sinal. Tese de Mestrado: Departamento de Ciências da Vida – Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Coimbra, Portugal.
³. Linehan, M. (2010). Terapia Cognitivo-Comportamental para o Transtorno de Personalidade Borderline. Artmed. Porto Alegre.
⁴ . Organização Mundial da Saúde. (2006). Prevenção ao Suicídio: um recurso para Conselheiros. Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias: gestão de perturbações mentais e doenças do sistema nervoso. Genebra, Suiça.
⁵ Ministério da Saúde. (2009). Prevenção ao Suicídio: Manual Dirigido a Profissionais da Saúde da Atenção Básica. Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria: Unicamp. São Paulo.

Autor:

Esequias Caetano -  Psicólogo: CRP 04/35023
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